As veias abertas de um latino-americano


08/07/2005 14:17

Lições, tragédias e contradições


Comida, quando feita com amor, é sempre deliciosa. A máxima é antiga, escuto desde até onde minha memória existe. Mas, às vezes, as comprovações vêm quando menos esperamos. Nesta terça-feira passada, almocei, junto com outros dois colegas de trabalho (Thais e Flávio) numa casa humilde na Vila Santo Afonso, ocupação urbana das mais carentes de Teresina, Piauí.


Como escrevi num postal enviado a uma amiga querida, Carol Lopes (a doçura em pessoa!), na Vila falta tudo: água, esgoto e luz regulares, saúde, educação, pavimentação, moradia adequada, espaços de cultura e lazer... tudo, menos dignidade e vontade de lutar... (leiam a carta digitalizada abaixo e comprovem)


O almoço estava simplesmente maravilhoso!! Comi e repeti o prato. Comida simples, do jeito que gosto: arroz, macarronada com ovo, feijão (o melhor!), farofa, frango e salada. E uma pimenta tão picante quanto saborosa!! Aliás, o Flávio literalmente devorou a pimenta. Parecia que estava colocando azeite ou molho inglês... (risos)


Toda essa celebração do corpo numa casa de taipa, sem reboco, cujos cômodos são divididos por panos.


Para quem não sabe, companheiro significa “aquele que compartilha o pão”. A comunhão do alimento com aquelas famílias apenas selou, de forma simbólica, a nossa colaboração, como companheiros(as), na luta de cada dia desta comunidade que não se submete às leis maiores da hegemonia cultural capitalista: a indiferença e a conformidade, faces gêmeas do aforismo tçao cantado “deixa a vida me levar”...


E como já disse um certo argentino-cubano-homem-do-mundo apelidado de “Che”:


“Se você é capaz de tremer de indignação a cada vez que se comete uma injustiça no mundo, então somos companheiros”.



Companheiros e companheiras de pão e de luta


***


A última atividade da oficina sobre Direito Humano à Alimentação Adequada em Teresina, com as famílias da Vila Santo Afonso e representantes de órgãos públicos, foi marcada pelas contradições.


De um lado a comunidade apresentava suas reivindicações, ciente de seus direitos e dos deveres do Estado em relação a eles. Do outro, as “autoridades” lavavam as mãos, ou se eximindo por completo da responsabilidade, ou relativizando os anseios da comunidade, ou jogando a culpa “nos gabinetes de Brasília” e ainda agredindo verbalmente as famílias que tiveram a ousadia de reclamar e cobrar providências do poder público local.


Fiquei, ficamos (eu, Thais, Valéria, também colega da Abrandh, e outras pessoas) perplexos, indignados e um pouco frustrados. Flávio, já conhecedor deste tipo de “cultura” por parte dos gestores públicos, não escondia a indignação, mas não ficou tão desorientado quanto nós, que estamos engatinhando nessa luta.


Uma das lideranças da Vila, Santinha, fez a melhor leitura do cenário: “Aquela senhora está confundindo desejos com direitos”. Mais lucidez, impossível.


Foto de primeira página do jornal Meio Norte, 06/07/2005 - a Vila Santo Afonso deixando de ser invisível


***


Ao final, as tragédias se chocando. A fome como condição cotidiana – e não estado esporádico – levou uma criança a pegar um pedaço de carne exposto no muro vizinho à casa onde ocorreu a oficina.


Em segundos, a senhora bastante idosa sai de casa e, aos gritos e em desespero, vem buscar a carne de volta. Alguns instantes e ela recupera, mas sai ofendendo os adultos e as crianças. A confusão está feita. Flávio convence a senhora a entrar em casa e vai conversar com ela. O diálogo demora. Enquanto a mãe da criança que pegou a carne desabava em choro, por ver a filha ser acusada de ladra, a senhora (de 73 anos) entrava em crise de consciência e também chorava compulsivamente no ombro de Flávio.


“Eu não sou assim... perdi o controle... me desculpe... eu sei que estas pessoas não têm o que comer, mas eu sobrevivo desta carne. Meu marido sofreu um derrame e vive na cadeira de rodas... acordo às 3h da manhã e preparo a carne para vender na feira”...


As tragédias da vida estão em cada esquina, em cada portão. Algo mais a dizer?


Enquanto isso, seguem as micaretas da vida, os festivais pop, as baladas...


"Odeio os indiferentes. Como Friederich Hebbel, acredito que viver significa tomar partido. Não podem existir apenas homens estranhos à cidade.

Quem verdadeiramente vive não pode deixar de ser cidadão e partidário. Indiferença é abulia, parasitismo, covardia, não é vida. Por isso odeio os indiferentes.

A indiferença é o peso morto da história. É a bala de chumbo para o inovador e a matéria inerte em que se afogam freqüentemente os entusiasmos mais esplendorosos, o fosso que circunda a velha cidade.

Odeio os indiferentes também, porque me provocam tédio as suas lamúrias de eternos inocentes. Peço contas a todos eles pela maneira como cumpriram a tarefa que a vida lhes impôs e impõe cotidianamente, do que fizeram e sobretudo do que não fizeram.

E sinto que não posso ser inoxidável, que não devo desperdiçar a minha compaixão, que não posso repartir com eles as minhas lágrimas.

Sou militante, estou vivo, sinto nas consciências viris que estão comigo a pulsar a atividade da cidade futura, que estamos a construir."


Antonio Gramsci
(um sujeito cujo juiz que o condenou à prissão no regime fascista de Mussolini registrou a seguinte frase: "Devemos impedir, por 20 anos, este cérebro de funcionar")

enviada por Rogério Tomaz Jr.






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