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04/10/2005 03:44
Inflexões e reflexões
Por que escrevemos? Galeano diz que era sua "maneira de estar com os demais depois de morto e assim não iam morrer totalmente as pessoas e coisas que eu tinha querido".
Escrever é um ato de comunhão. De divisão. De partilha. Mas, nesse caso, só nos dividimos com os outros quando nos sentimos suficientes para nós mesmo. Se o peso que nos lega a existência é suportável ou nem chega a ser pesado. É a leveza do espírito, da mente. E como canta Siba, do Mestre Ambrósio, "se a cabeça não pensa é o corpo quem padece".
Só consigo escrever (de dentro pra fora) quando reúno os três elementos: vontade do corpo, inspiração da mente (nada muito elevado, mas tão somente um estado propício para agarrar as palavras soltas no ar) e tesão do espírito.
Desde 14 de julho, aniversário da Queda da Bastilha, não escrevia aqui. Tentei algumas vezes. Rabisquei, planejei, desejei... mas sempre faltava algo.
Muita coisa aconteceu. Tem acontecido. Sentimentos a mil e de mil e um tipos. E aprendizado, sempre. Aprendi que a tristeza é pedagógica. Desconfiava, mas confirmei nesses últimos meses. Na realidade, tudo que nos acontece é pedagógico, mas alguns processos e fatos têm mais esse caráter do que outros.
Descobri (ou enxerguei) também que a família é absolutamente imprescindível na minha vida. Tanto quanto o imperativo de rodar o mundo, de desvendá-lo com os olhos, com nariz, com a boca e com o corpo. No meio desses extremos, gravita o sofrimento da impossibilidade de ter e fazer tudo que desejo.
A grande novidade é que deixei de ser um alienígena na própria família, pelas opções políticas e de modos de vida que adotei nos últimos cinco anos. Foi preciso me afastar, me livrar das amarras que me davam segurança, andar com os próprios pés, para ser reconhecido e respeitado. Nada exatamente inédito na história da humanidade, porém marcante para qualquer um que viva isso. E, apesar do saldo (emocional, sobretudo) extremamente positivo, dói constatar a solidez da hegemonia da lógica do "ter sobre o ser" justamente no núcleo essencial da sua vida, logo quando você é (ou procura ser) alguém vive de corpo e alma para combater essa lógica.
***
O que dói mais? A perda, no plano físico, de uma pessoa querida ou as sucessivas e incontáveis dores que as visões e contradições do sistema causam, como se fossem fatos dados, irreversíveis?
Com o tempo, por mais duro que seja, é possível viver com o peso da primeira dor. Ou não. Mas em relação à segunda, é preciso, em algum momento, fechar os olhos, tapar ouvidos e nariz e criar um mundo irreal, ou incompleto, para poder suportar o espectro permanente da miséria humana, em todos os seus significados.
Muitos naturalizam essa postura. Outros vomitam de vez em quando.
Por vezes, muitas vezes ultimamente, sou repentinamente tomado pela vertigem de me converter à religião do conformismo, me tornar discípulo da lógica "deixa a vida me levar", sendo que, na realidade, alguns, a maioria esmagadora, são levados (ou arrastados?!), enquanto alguns, eu dentre eles, posso "levar" um pouco...
Sortudo que sou, essa confusão dura o tempo de uma vinheta da Globo... e a lucidez habitual geralmente retorna junto com a palavra de ordem: PAU NA MÁQUINA!
E tenho criado o hábito de atirar pedras em tanques. Mais sobre isso outro dia.
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E a saudade? No último mês e pouco, quatro pessoas queridas foram morar do outro lado do oceano. Os paulistas João Brant e Rodrigo Valente (pelo qual tenho carinho como irmão e respeito como referência política e pessoal e além de tudo é o meu esquerdista favorito!! ehehe) foram para a ilha do Tony Blair.
O primeiro, nosso ex-capa de Enecos e atual capa (no melhor dos sentidos, óbvio) de Intervozes, para o mestrado. o segundo, para uma temporada mais curta, para estudar a língua de Shakespeare e Hobsbawn. Vão fazer muita falta.
Flávia, brasiliense (ou guaraense?), no Porto, onde já está há uma semana degustando vários vinhos BBB (bons, bonitos e baratos). Julia, recifense, segue amanhã (terça, 4/10) para Barcelona.
Que fiquem bem, cumpram seus objetivos e superem suas expectativas. Aguardamos seus retornos.
Falhei com a Flávia na véspera da viagem dela. Tinha na cabeça que ia na terça, quando a partida era segunda. No domingo à noite, fui ver a exibição do Flu contra o Santos (aliás, como me disse o companheiro tricolor Marcelo Siqueira, meu "cunhado" carioca, o Fluzão não cobra mais ingresso nas suas partidas... apenas couvert artístico) e tive como despedida dela apenas o breve encntro no Beirute, no sábado.
Vou vê-la no próximo ano. Aqui ou lá, caso eu crie coragem e vá circular pelo Velho Mundo. Mas pelo menos ela levou de presente o maravilhoso "Doze contos peregrinos", do Garcia Márquez, que ainda nem tinha acabado de ler.
Também já agradeci à Julia pela conversa que tivemos há pouco. Há mais de ano não ouvíamos nossas vozes. É sempre muito gostoso ouvir seu sotaque e sentir a empolgação espontânea que essa guria tem. Fome de mundo, fome de cultura, de conhecimento. E brilho. Que saudade!
"Tempo de espera"
Cessaram os cânticos
que em tardes de chuva
batiam nos vidros daquela janela.
É agora o tempo branco
da espera de outras euforias
doçura amarga arrastada nas horas.
É um espaço, um salto
um saber de distância calada.
Nem um som, nem um murmúrio
quebram os muros que se erguem.
É um caminho de silêncio
dentro de mim rodeada de risos.
Dias parados no limbo do tempo
baço, que a luz do sol é lá fora.
Tempo de espera. Do inevitável. Da alegria. Da saudade.
De Lique http://mulher50a60.weblog.com.pt/arquivo/2004/12/tempo_de_espera.html
E um forte viva à arte!!
enviada por Rogério Tomaz Jr.
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