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28/10/2005 16:36
Palavras do "Galego"
Reproduzo abaixo um texto "fuderoso" de um grande amigo pernambucano, "cabra da peste", radialista de formação, jornalista-cronista-contista-poeta-popular por vocação, indignado de mente e coração e lutador por opção.
Dos fatos que ele relatou, acompanhamos (no meu trabalho) e atuamos de perto em dois casos, as mortes nos canaviais e a luta do povo no Engenho Prado.
Depois de ver coisas como um tribunal regional passar por cima da decisão do STF (Supremo Trinunal Federal), a mais alta instância da Justiça no país, além das mortes morridas e mortes matadas pelo agronegócio (a face "muderna" dos senhores de escravos), dá até vontade de soltar de vez a indignação e deixar as armas da razão para usar a razão das armas, contra esse sistema insustentável.
O blógui dele: http://www.carraspana.blogspot.com
Não deixe de visitar de vez em quando.
Outra ótima leitura, de uma galera que não se rende ao jornaZismo que aprendemos nas salas-de-aula das fábricas de diploma e mesmo nas universidades públicas, cada vez mais privatizadas ideologicamente: http://www.fazendomedia.com/diaadia/nota271005.htm
Abraços,
Rogério Tomaz Jr.
"Porque estou do lado de cá
Ontem um agricultor de 47 anos morreu de estafa após colher 25 toneladas de cana de açúcar, no interior de São Paulo. Semana passada, saiu um relatório de direitos humanos (não lembro onde, mas li na Folha de São Paulo) que indicava que as crianças que trabalham na cana de açúcar, lá, colhem 15 toneladas de cana por dia.
Os agricultores de cana de açúcar de Pernambuco (organizados na FETAPE) estão realizando a segunda maior greve da sua história. Para furar a greve, os usineiros contratam trabalhadores em outros estados, prendem grevistas dentro do engenho (e chamam a polícia pra denunciar "invasão de propriedade") e usam PMs como segurança particular para os treminhões. O Jornal do Commercio cobre a greve por seis dias. A Folha está proibida de cobrir, até pq seu dono é usineiro. O DP não cobriu (dizem que pq levaram o furo e não querem dar razão ao JC). Ontem o JC cedeu à pressão dos outros e parou de cobrir a greve - que continua e se intensifica.
Ontem, 40 famílias de agricultores rurais sem terra foram cercados na casa grande da fazenda Santo Antônio, em Altinho (aqui no agreste). O cerco foi realizado por pistoleiros. Se não eram de algum grupo extremista de direita, devem ter sido contratados pela dona das terras. O cerco começou no fim da tarde, quando os criminosos entraram no acampamento atirando, deixando como únioca alternativa pro povo entrar na casa-grande. Eu soube do acontecimento à noite. Ligamos pra polícia e pra imprensa daqui. De manhã, depois de terem passado a madrugada inteira acordados debaixo de bala, os sem terra foram libertados por outros sem terra, que foram pro lugar em três carros e fizeram uma algazarra tamanha, dando cavalos de pau e partindo pra cima (com o carro) dos pistoleiros, que dispersaram o cerco. Os criminosos correram e meia hora depois a polícia chegou. A imprensa não foi. Oficialmente o cerco não existiu.
Ontem no fim da tarde, Hamilton da Silva, 34 anos, conhecido como Nenê, liderança estadual do MLST, foi assassinado. Ele estava num posto de gasolina, na cidade de Itaíba, quando dois homens numa moto dispararam 10 tiros no rosto dele. Um mês atrás, ele avisou ao Ministério Público que vinha sofrendo constantes ameaças de morte, por parte dos fazendeiros da região. Nada foi feito. Não há suspeitos.
Ontem, um desembargador do TRF da 5ª Região suspendeu uma decisão do Supremo Tribunal Federal, que determinava a imissão de posse do engenho Prado às 300 famílias de sem terra acampadas lá desde 1998. Em 2003, grupos de pistoleiros atormentaram aquelas famílais, e a PM destruiu com tratores toda a lavoura que os acampados haviam plantado para comer, além de todos os barracos e mesmo a escola construída no lugar pelos sem terra. A terra foi conmsiderada improdutiva anos atrás, mas nem isso impediu a ação da polícia, que somente cumpriu um mandato judicial do TJ. A partir de hoje, ao que parece, decisões do Supremo (que antes eram indiscutíveis) podem ser suspensas por tribunais "menores", como é o caso do Tribunal Regional do tal desembargador.
Ontem, 180 trabalhadores rurais sem terra de todo o Estado começaram a segunda etapa do EJA médio promovido pelo MST. Eles passarão as próximas semanas estudando pra receberem um diploma do ensino médio. Os 180 se dividiram em grupos setoriais. cada dia, um grupo lava os pratos, outro varre as dependências do lugar, outro prepara a mística do dia, outro prepara a noite cultural. A maioria era analfabeto até entrarem no movimento".
enviada por Rogério Tomaz Jr.
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