As veias abertas de um latino-americano


23/11/2005 21:02

Grande notícia e vaia de orgulho

Hoje tive a melhor notícia do ano e até dos últimos anos. Trezentas famílias conquistaram definitivamente a posse de três propriedades na zona da mata pernambucana, terra dos cononéis do "rei açúcar", como se refere Galeano.


É o caso do Engenho Prado, cujo histórico é exemplar da luta pela reforma agrária no Brasil, por conter todos os aspectos possíveis dessa dura peleja “de todos contra poucos” (privilegiados e muito poderosos), como diz meu chefe, amigo e referência política e pessoal, Flávio Valente. Aliás, Flávio deu sua contribuição valorosa a essa vitória coletiva, na condição de relator nacional para os direitos humanos à alimentação adequada, água e terra rural.


Se as famílias do Prado pensassem como nos manda pensar a máquina capitalista ("não há alternativa", "não tem jeito", "o governo é quem deve resolver tudo", "não existe sociedade [muto menos organizada], apenas indivíduos"), JAMAIS teriam desafiado o senso comum (imposto via mídia, Igreja, escolas, militares e outros aparelhos ideológicos) e iniciado a luta, através da OCUPAÇÃO das propriedades, QUASE UMA DÉCADA ATRÁS.


Nesse tempo, apanharam e foram humilhados pela PM e pelos jagunços dos "coroné" várias vezes; foram despejadas com truculência duas vezes; alguns foram assassinados; muitos ameaçados; a (in)Justiça estadual se negou inúmeras vezes a respeitar a Constituição (Arts. 5º, 170, 173, 184, 185 e 186), na observância da função social da propriedade rural, e chegou ao cúmulo de passar por cima de uma ordem do Supremo Tribunal Federal (STF); a imprensa local criminalizou a luta das famílias, tratando-as como delinqüentes; e dizer que elas comeram o pão que o diabo amassou é eufemismo ou piada para se referir ao sofrimento que viveram, e objetivamente vivem ainda hoje, em relação ao cumprimento de suas necessidades e direitos básicos.


Mas agora o choro é de alegria.



Cena de um dos despejos sofridos pelas famílias do Engenho Prado.


E a luta é para (re)construir a vida, com dignidade e altivez. E mostrar aos “mudernos” senhores da Casa Grande que o Brasil que dá certo é o da agricultura camponesa*, que abastece 70% da comida que chega à nossa mesa, gera renda e emprego para 14 milhões de brasileiros e brasileiras, não destrói o meio ambiente, não dá calote nos cofres públicos (os ruralistas devem mais de R$ 30 bilhões ao povo e aplicam calote em cima de calote), não usa mão-de-obra escrava e semi-escrava, e não viola outros direitos humanos.


Aliás, se soma a esta notícia a experiência inédita que tive ontem. Fui vaiado pela turma do Caiado. Sim, a UDR deu chilique em audiência pública na Câmara, sobre agrotóxicos, e quase não me deixou falar, depois que expus a face podre do agronegócio, relacionada em parte no parágrafo acima. Na hora foi uma sensação estranha. Segurei o ímpeto de bater boca e exigir que fosse respeitado minha liberdade de expressão. Falei o que pude no tempo escasso que me deram. E eles gritaram e vaiaram o que puderam, além de terem sido irônicos e posarem de vítimas (oh coitadinhos!) após minha fala.


Quem se interessar, pode ajudar e participar da campanha contra os agrotóxicos:

http://www.abrandh.org.br/chegadeveneno


E viva à luta do povo brasileiro! Outros Prados virão!!


Rogério Tomaz Jr.

*O termo mais comum para designar a pequena agricultura é "agricultura familiar", mas este é conceito de fundo ideológico capitalista e cheio de contradições (o Blairo Maggi, por exemplo, maior sojeiro do mundo e governador do MT, se diz "agricultor familiar", porque sua família cuida dos negócios).

enviada por Rogério Tomaz Jr.






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